IPEA e seu estudo sobre percepções sociais e a violência contra a mulher: uma crítica à metodologia utilizada

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No dia 27 de março de 2014 o IPEA divulgou um estudo sobre a percepção nacional no que toca à violência contra as mulheres. O estudo teve intensa repercussão na mídia, especialmente porque retrataria, empírica e cientificamente, o rosto machista e arcaico da sociedade brasileira.

Costumo torcer o nariz para os estudos do IPEA. Há pouco tempo, a instituição sugeriu que a Lei Maria da Penha não estaria produzindo os resultados desejados. Naquela momento também houve muita repercussão na mídia. Fui atrás do estudo e encontrei uma dezena de fragilidades metodológicas. A conclusão dos pesquisadores era fundada em um único desfecho observacional (número de homicídios) e os pesquisadores não lograram demonstrar que a amostra de homicídios investigada decorreria de violência doméstica. É bem possível que a Lei Maria da Penha não esteja funcionado (como boa parte das políticas públicas brasileiras), mas o estudo não acrescenta nada cientificamente válido para que se chegue a essa conclusão. Para aqueles que têm interesse em investigações empíricas sobre intervenções sociais complexas (como leis), sugiro a leitura do trabalho de Ray Pawson “Does Megan’s Law Work? A Theory-Driven Systematic Review”.

Voltando ao IPEA, o estudo sobre a violência contra as mulheres – fundado em questionários -, assim é apresentado:

“Homem que bate na esposa tem que ir para a cadeia”. Concordaram com esta afirmação, total ou parcialmente, 91% dos entrevistados em maio e junho de 2013 pelo Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) do Ipea. A tendência a concordar com punição severa para a violência doméstica transcendeu as fronteiras sociais, com pouca variação segundo região, sexo, raça, idade, religião, renda, ou educação. Nada mais, nada menos que 78% dos 3.810 entrevistados concordaram totalmente com a prisão para maridos que batem em suas esposas. Além disso, 89% tenderam a discordar da afirmação “um homem pode xingar e gritar com sua própria mulher”.

Infelizmente, seria prematuro concluir, com base nesses resultados, pela baixa tolerância à violência contra a mulher na sociedade brasileira, pois a mesma pesquisa oferece evidências no sentido contrário. Quase três quintos dos entrevistados, 58%, concordaram, total ou parcialmente, que “se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros”. E 63% concordaram, total ou parcialmente, que “casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família”. Também, 89% dos entrevistados tenderam a concordar que “a roupa suja deve ser lavada em casa”; e 82% que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. 

Não consta, na descrição metodológica do trabalho, que os questionários tenham sido objeto de validação. Nesse tipo de pesquisa, trata-se de uma conduta metodológica muito relevante e que pode evitar que os resultados finais sejam enviesados. A validação de questionários (questionnaire validation) é uma prática comum nas pesquisas clínicas e pode assim ser resumida:

“The term “validation” has a variety of meanings in clinical research, the first and most obvious being the assessment of computer systems to ensure they function as expected. “Validation” is also the process by which any data collection instrument, including questionnaires, is assessed for its dependability. Validating questionnaires is somewhat challenging as they usually evaluate subjective measures, which means they can be influenced by a range of factors that are hard to control”. (texto original aqui).

A falta de validação do questionário pode ter afetado a indispensável neutralidade das assertivas apresentadas aos entrevistados, enviesando os resultados encontrados pelos pesquisadores.

Vejamos alguns exemplos. Uma das afirmações assim era apresentada: “Homem que bate na esposa tem que ir para a cadeia”. O que parece emergir aqui é a agressão e, apenas em um segundo momento, a figura da esposa como vítima. Creio que uma pergunta levemente alterada teria resultado semelhantes: “Pessoas que agridem animais domésticos têm de ir para a cadeia?”. A pergunta não é neutra, ela induz o entrevistado à concordância.

Outra assertiva: “Um homem pode xingar e gritar com sua própria mulher”. O mesmo problema. Caso a expressão “sua própria mulher” fosse substituída por “seu colega de trabalho” ou “seu melhor amigo”, provavelmente os resultados seriam os mesmos. O entrevistado é induzido a discordar da afirmação.

A afirmação mais controversa do estudo assim se apresenta: “Se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros”. Reparem que é natural que as assertivas que estabeleçam causa e efeito sejam, em um primeiro momento e instintivamente, respondidas positivamente. Vejam os seguintes exemplos: “Se o Palmeiras tivesse um ataque mais organizado teria ganho o campeonato” tende a ser respondido com uma concordância ou com uma concordância parcial, porque simplesmente aparenta ser uma afirmação bastante verdadeira.

A utilização de frases e expressões cotidianas no questionário também pode ter enviesado as respostas.  Enfrentar, com neutralidade, a assertiva “em briga de marido e mulher não se mete a colher” é quase impossível. O viés é primário: você, leitor, concorda com as afirmações “quem tem pressa come cru”, “a vingança é um prato que se come frio” e “os últimos serão os primeiros”? Caso concorde, parcial ou integralmente, você pode ser classificado como um entrevistado vingativo, conformado e esperançoso.

Vejam, não estou afirmando que a violência contra a mulher no Brasil não seja um assunto que mereça imediato enfrentamento, tampouco que nossa sociedade não permaneça essencialmente machista e embrutecida. Há dados oficiais que demonstram sermos machistas, preconceituosos e arcaicos. Os abusos no metrô de SP são um retrato da ainda “coisificação” da mulher brasileira.

No entanto, ainda que o estudo do IPEA nos traga interessantes conclusões sobre a sociedade brasileira, é importante avalia-lo criticamente. Mais como uma fonte interessante e curiosa de informações a serem depuradas e menos como uma representação científica da realidade social brasileira.

 

 

9 pensamentos sobre “IPEA e seu estudo sobre percepções sociais e a violência contra a mulher: uma crítica à metodologia utilizada

  1. Duvidei na mesma hora em que vi este estudo. As perguntas realmente induzem as pessoas a responderem um “sim”. É claro que estamos numa sociedade machista e que, infelizmente, há mtas pessoas que pensam desse jeito. Mas eu não achei o estudo da IPEA confiável.

  2. Olá! Fiquei muito confuso com a explicação sobre a tendência à concordância do entrevistado em casos de assertivas afirmativas de causa e efeito. Sinceramente não vejo, por exemplo, porque responder sim no exemplo do Palmeiras, da mesma forma que não vejo porque responder sim para a pergunta sobre o estupro (em todos os sentidos). E se é uma regra, como fugir disso sem cair em questões simplistas, que não exploram a multiplicidade de significados envolvidos em qualquer palavra? Por exemplo, poderia ter sido colocado na questão “mulher que exibe muito seu corpo deve ser estuprada”, tentando deixar a coisa bem clara para o entrevistado e evitando ambiguidades. Esse tipo de assertiva é elogiada como a melhor pelo cara da veja, por exemplo (no caso, era “homem que bate na esposa tem que ir para a cadeia”). Porém, assertivas desse tipo parecem evocar muito claramente um senso “moral” comum, próprio da colocação de opiniões e posturas na dimensão pública onde diversas coerções se fazem presentes, mas que não condiz com sua efetivação privada ou que se dá nas relações sem apreensão/reflexão sobre o que se faz.

    • Prezado,
      obrigado pela leitura do blog!
      Concordo integralmente com as suas colocações e acrescento algumas outras. No post em questão, dei apenas exemplos de assertivas sobre causa e efeito que, como você bem observou, podem estar, elas mesmas, enviesadas.
      De fato, não existem assertivas ou questões “boas” ou “ruins”, uma vez que todas passam por um intenso processo de interpretação, como em qualquer outra forma de comunicação.
      A semiótica envolvida e as sabidas limitações da palavra como meio de representação das intenções de qualquer ser humano fragilizam a utilização dos questionários como meio seguro de investigação empírica. No entanto, esse tipo de pesquisa pode ser cientificamente mais íntegro caso alguns cuidados sejam tomados pelos pesquisadores.
      O problema é que, na pesquisa do IPEA, esses cuidados não foram tomados. Para mitigar ou reduzir os vieses aludidos – e aí minha intensa crítica à metodologia do estudo – a comunidade científica faz uso do método conhecido por questionnaire vallidation, explicado ao longo do post.
      Se não havia tempo ou caso não estivessem dispostos a aguardar pelo longo processo de validação, deveriam os pesquisadores, em respeito à integridade científica e ao direito à informação de seus leitores, esclarecer tal aspecto metodológico como restritivo de qualidade.
      Como não fizeram nada disso, só podemos assumir que todas as assertivas e questões estavam enviesadas (não há como garantir, metodologicamente, que não estavam, concorda?) e que, por isso, o resultado encontrado é mero passatempo que finge ser de ciência.
      Seguem alguns links interessantes sobre a validação de questionários, caso tenha interesse:

      http://www.jpma.org.pk/full_article_text.php?article_id=3414

      http://www.joe.org/joe/2007february/tt2.php

      http://jornalggn.com.br/blog/pesquisadora-valida-questionario-de-1981-que-mede-qualidade-do-sono-infantil

      http://vijeshjain.com/2012/07/08/reliability-vs-validity-of-a-questionnaire-in-any-research-design/

      Abraços e obrigado pela leitura,

      Douglas Marin

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  7. Ola, Aqui Domingos Bie de Mocambique. Voces nao imaginam o quanto foi bom ver este texto e respectivos comentarios. Estou preparando um questionario para estudar as “percepcoes sobre a violencia domestica contra criancas e adolescntes”, no ambito do mestrado em Psicoterapia Psicodinamica. A grande dficuldade ca em Africa e falta de estudos similares e dificuldade de acesso aos intrumentos modelos que possamos adaptar, pelomenos e assim em Maputo, em cursos pioneiros como o meu.

    Qual a possibildade de alguem me ajudar (em modelos de questionario) ou de outra forma que me ajude a aprender e a fazer uma pesquisa razoave;mente aceitavel?

    • Prezado Domingos, é um prazer tê-lo no blog. Por favor, mande um e-mail para “direitoeafins@gmail.com” para que possamos conversar sobre sua pesquisa. Será um prazer ajudá-lo, ainda que – é claro – considerando minhas limitações.
      Um abraço d’além mar,
      Douglas

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